Fé, Ética e Realidade
1 Agosto, 2009
Creio que nunca a humanidade necessitou tanto de uma revisão de convicções, como no presente. Algo que, de longe, a maior figura da humanidade, no século XX e no início do XXI, que é João Paulo II, sinalizou para todos os credos e todos os povos. Este admirável cidadão do mundo e do tempo, que, durante muitos anos, nos ensinou como viver, agora está nos ensinando, como morrer, eternizando os valores de sempre.
E o clima de contestação, de terrorismo internacional e de guerrilha urbana e rural (no Brasil), com o avanço deletério e corrosivo do narcotráfico, é apenas o retrato de uma realidade divorciada de tais valores.
É que, na verdade, tais políticos que brandem a ética como os cavaleiros medievais, as espadas, não são éticos, pois lhes falta a crença nos valores fundamentais, únicos que podem assegurar aquela tranquilidade “realiana”, a que me referi no início do artigo.
No mundo, a realidade não é diferente, lembrandose que o “ético” presidente americano que se apregoa defensor da moral e da humanidadementiu para a nação americana, objetivando levar a cabo uma vendeta familiar, com dramático preço pago em vidas, no Afeganistão e no Iraque.
A realidade política brasileira está prenhe de permanentes exemplos de pessoas e partidos que apregoam a ética e adaptamna à sua conveniência, mudando seu conteúdo e princípios, como no passado na expressão de célebre autor francêsmudavamse os cavalos das carruagens, a cada posto de troca.
De rigor, a crise dos séculos XX e XXI é gerada pela descrença em valores superiores, que leva ao esvaziamento absoluto da ética e da moral, transformandoas em “slogans” para os mais variados usos.
Tais digressões objetivam trazer à reflexão de meus leitores do Jornal do Brasil, nesta coluna quinzenal, o verdadeiro conteúdo da Ética e da Moral vocábulos tanto mais mencionados, quanto menos vividos, em todos os ambientes sociais e profissionais– em face do cenário atual.
É com o Cristianismo, todavia, que na cultura grecoromana, se abre, em dimensões transcedentais, a perspectiva da vida alémmorte, libertando o homem dos deuses mais humanos que divinos, da mitologia daquelas duas culturas, para o reconhecimento da existência de um Deus supremo, que se fez homem, impregnando os denominados valores éticos ou morais dessa perenidade e tranquilidade para quem os vive, a que Miguel Reale se refere.
O que têm de comum, todavia, é a busca de valores, vinculada, na maior parte dos pensadores das duas culturas, às divindades e à certeza da vida eterna.
Esta é a razão pela qual a “moral” mais pragmática dos costumes romanos, opõemse, em alguns aspectos, à “ética” especulativa dos gregos.
E a razão fundamental dessa diferença reside, a meu ver, na característica “filosóficaespeculativa” do grego (a plêiade de filósofos que produziu é fantástica) e na característica pragmática dos romanos, um povo que soube instrumentalizar o direito para conquistar e manter os povos dominados, estendendo a cidadania romana e a proteção do Direito a todos eles, a partir de Antonino Caracala (212 d.C.).
Ocorre que as culturas greca e romana, se muito semelhantes, em sua conformação cultural e religiosa (os mesmos deuses e os mesmos valores), no plano político, exteriorizam realidades distintas. A Grécia jamais se transformou num império, em face do fenômeno das cidadesEstados (daí a expressão “polis” de que se origina “política”), ainda que tenha tentado fazêlo, sob Alexandre Magno. Sua morte prematura dividiu o império recém conformado, em três (dos Lájidas, dos Aquemênidas e dos Seleucidas). Roma, ao contrário, consolidou um poderoso império, após as experiências da Monarquia e da República, o qual durou, de rigor, 2.100 anos (754/3 antes de Cristo, até 1453 da era Cristã, com a queda de Constantinopla).
Assim é que, no grego, “ethos” configura “costumes”, o mesmo ocorrendo com “mores”, “costumes” em latim, ou seja, tanto a palavra “moral” quanto a “ética” decorrem de expressões grega e romana, veiculando valores representativos da maneira de ser de cada povo.
Muito embora muitos insistam em ver identidade entre Ética e Moral, em sua faceta de percepção da realidade, tenho para mim que o conteúdo dos referidos conceitos está ligado à característica e peculiaridade dos povos, que conformaram a etmologia desses dois vocábulos.
Desejo, neste artigo, projetar as considerações do insuperável mestre no exame da realidade brasileira e mundial, visto que a determinante “fé” traz implicações concernentes a valores éticos e morais.
Sendo, hoje, a maior expressão filosófica da latinidade, sua afirmação ganha dimensão transcendental, na medida em que sugere que o avanço da idade tem levado filósofos de densa convicção positivista a reverem, mesmo que de forma tímida, conceitos pretéritos, principalmente os que implicam a negação do Criador como ocorreu com Norberto Bobbio.
Miguel Reale, em seu recente artigo “Variações sobre a fé” (Estado de São Paulo, 24/04/04, p. 2), concluiu que “cada vez mais me convenço de que quem tem fé não tem temor à morte”, afirmando ser a “fé a suprema conjetura que nos traz a paz de espírito, a maior felicidade que se pode desejar”.
Ives Gandra Martins
É um jurista brasileiro com reconhecimento internacional, é professor emérito das universidades Mackenzie, Paulista e da ECEME – Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Presidente Academia Paulista de Letras (2004/2006); Produtor e Conferencista do Programa ”Conheça a Constituição” da Rede Vida de Televisão e do Centro de Extensão Universitária, desde 2004; Coordenador do Programa ”Caminhos do Direito e da Economia” da Rede Vida de Televisão e da Academia Internacional de Direito e Economia desde 1997; Participação e coordenação de 500 Congressos e Simpósios, nacionais e internacionais sobre Direito, Economia e Política; Participação em inúmeras bancas examinadoras em diversas universidades do país (USP, UNESP, PUC-SP, FGV, Mackenzie, Universidades Federais, etc); Conselheiro do Fórum São Paulo Século XXI da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo; Conselheiro da Fundação Konrad Adenauer no Brasil; Membro da Ordem Nacional dos Escritores, da União Brasileira de Escritores, da Assoc. Nacional dos Escritores; Membro do Conselho Consultivo do Instituto Ayrton Senna; Presidente e Professor do Centro de Extensão Universitária.



Ives Gandra Martins