O Tempo e as Ressonâncias. Os Estados Modernos, o Anarquismo, o Anarco-Sindicalismo e Jihadismo

6 Abril, 2010

1. Como seria de esperar, o surto de terrorismo transnacional que se foi consolidando depois do fim do Mundo bipolar – sobretudo o jihadista – tem vindo a dar azo a preocupações e especulações várias. Uma tónica cada vez mais comum tem sido a de comparar o terrorismo contemporâneo com variantes que o precederam, designadamente a onda de acções políticas violentas, e também supra-estaduais, que acompanharam, em particular nas últimas duas décadas do século XIX e nas primeiras do XX, a emergência de movimentos anarquistas no Ocidente. Anarquistas e jihadistas, tem sido muitas vezes o subtexto de análises publicadas, por de trás de diferenças manifestas, de diversos pontos de vista apresentam semelhanças profundas.

Os pontos de aplicação destas comparações têm oscilado. Alguns autores têm preferido sublinhar o facto de, por baixo das diferenças político-ideológicas evidentes, jihadismo e anarquismo coincidirem nas críticas ferozes que formulam contra o que encaram como a inexorável decadência moral e política das sociedades ocidentais. Outros têm preferido dar realce às ligações umbilicais entre ambos: por um lado, tanto anarquistas como jihadistas utilizam formas de acção directa e violenta, recorrendo para tal, por outro lado, a formatos organizacionais descentralizados e pouco hierárquicos. De maneira menos parcelar, muitos investigadores têm vindo a estabelecer paralelos – de certo modo mais abertos – relativamente aos impactos e feitos da violência utilizada num e noutro destes dois casos, bem como nas semelhanças e diferenças nas respostas dos Estados a estes surtos de acção política. Neste quadro, tem sido muitas vezes notado que aquilo que se tornou porventura no legado mais importante da onda de ataques anarquistas – que, como é bem sabido, visavam subverter todas as formas hierárquicas de poder – foi o reforço dos órgãos de repressão do Estado e uma robustez acrescida da ordem internacional Westphaliana em que os Estados contracenam.

Um momento de reflexão põe em evidência um denominador comum a todos estes esforços analíticos de comparação. Uma premissa que partilham é, com efeito, a ideia mais ou menos implícita de que os processos históricos em causa exibem semelhanças tais que na prática acabam por se iluminar mutuamente. Nas versões mais hard destas comparações parece mesmo perpassar a noção (uma convicção difícil de fundamentar) de que, de algum modo, a História se repetiria – uma ideia essencialista só enquadrável numa visão estranhamente monótona do devir histórico-social; e uma ideia que presume uma ou outra forma de uma ciclicidade cujas razão de ser e fundamentação seriam decerto pouco possíveis de vislumbrar4. De maneira menos abusiva, parece-me defensável sugerir que há continuidades e transformações, ancoradas em numerosas semelhanças e numerosíssimas diferenças; diferenças e semelhanças para as quais uma ponderação cuidada é de óbvia utilidade analítica, já que se pode com comparativa facilidade alegar que trazem à superfície tendências de longa duração na dinâmica do sistema internacional – para usar um enquadramento Braudeliano – que ganhamos em conhecer. O objectivo do presente artigo é o de tentar pôr algumas delas a nu.

Divido o estudo que se segue em duas partes substanciais. Numa primeira estabeleço um quadro geral de convergências e divergências entre anarquismo e terrorismo islâmico. Levo-o a cabo, algo teleológica mas indirectamente: fazendo ab initio sobressair, logo nas minhas descrições do movimento anarquista, traços distintivos que o aproximam do anarquismo, e traços comuns que dele o separam. Numa segunda parte, comparo, pondo-as como que em ressonância, as reacções dos Estados a estas duas ondas de violência política. Foco aí, embora tão-somente em termos muito genéricos, tanto reacções político-programáticas quanto inovações institucionais. Interessar-me-ei, muito em particular, e por razões que a par e passo irei tornando claras, com a retórica política dos adversários estaduais que tanto uns como outros destes agrupamentos insurgentes têm vindo a encontrar pela frente. Concluo com breves considerandos de maior fundo, evitando, no entanto, grandes generalizações por estas me parecerem arriscadas.

2. Recuemos quase um século e meio e, na volta dos anos de oitocentos para os dos novecentos, alinhemos a verdadeira galeria de horrores que prenunciou a queda final dos grandes impérios centro-europeus e o fim geral de uma longa época na vida do mundo político ocidental.

Em 1881, foi morto em S. Petersburgo Alexandre II, o famoso Czar russo “liberal”, por uma granada artesanal reputadamente lançada por militantes revolucionários russos e polacos. Em 1894, um anarco-sindicalista italiano com um nome improvável, Sante Jeronimo Caserio, assassinou à facada o Presidente da República francesa, um homem com um nome também pouco comum, o de Marie François Sadi Carnot. Três escassos anos mais tarde, em 1897, um outro anarquista italiano, Luigi Lucheni, esfaqueou fatalmente a Imperatriz Elizabeth (a tão célebre Sissi) Imperatriz da Áustria e Rainha da Hungria. Pouco depois, ainda nesse mesmo ano, o Primeiro-Ministro espanhol, Antonio Canovas, foi brutalmente liquidado por um correligionário, mais uma vez um italiano, desta feita Michele Angiolillo.

Não se tratou de casos isolados, bem longe disso. Em 1900, Umberto I, o Rei italiano, foi brutalmente assassinado num outro ataque anarquista, por Gaetano Bresci, e logo no ano seguinte, em 1901, outro activista, desta feita norte-americano, de seu nome Leon Frank Czolgosz, matou William McKinley, então o Presidente dos Estados Unidos em exercício. O Rei da Sérvia, Aleksandar I e a sua consorte, a Rainha Draga, foram assassinados e mutilados, em 1903, por activistas da Mão Negra (no vernáculo, Crna Ruka), um agrupamento insurgente local. O nosso Rei D. Carlos e o Príncipe da Beira, o seu herdeiro D. Luís Filipe, foram ambos mortos a tiro, em 1908, por dois carbonários, Alfredo Costa e Manuel Buíça. Um segundo Primeiro-Ministro espanhol, José Canalejas, foi assassinado em Madrid em 1912, de novo por um anarquista, Manuel Pardiñas. Alexandros Schinas, mais um anarquista, desta vez um grego, liquidou, em 1913, em Tessalónica, o Rei da Grécia, Jorge I. Finalmente, em 1914, o futuro Imperador austro-húngaro Franz Ferdinand8 e a Mulher, Sophie, Princesa de Hohenberg, foram abatidos a tiro em Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina, por Gavrilo Princip, um activista político nacionalista também membro da famigerada organização Mão Negra.

Esta hecatombe viu-se complementada por uma enorme série de tentativas goradas de liquidar outros líderes: o Rei Alfonso XII de Espanha viu-se visado em 1878, o Kaiser Wilhelm I, da Alemanha, sofreu dois atentados, um em Maio e outro em Junho desse mesmo ano, 1878, Henry Clay Frick, o reputadíssimo business partner de Andrew Carnegie, o industrial escocês que criou a US Steel, uma das maiores e mais influentes empresas da história norte-americana, foi atacado em Pittsburgh, em 1892, um Ministro sérvio foi-o em Paris, em 1893, e o Rei de Espanha Alfonso XIII e a sua noiva inglesa foram alvejados em 1906, em Madrid, no seu dia de casamento – só neste incidente, em que os consortes escaparam ilesos, morreram vinte circunstantes.

Compreensivelmente, o terrorismo transformou-se numa das preocupações centrais de políticos, polícias, jornalistas, e romancistas, de Fiodor Dostoievsky a Joseph Conrad, de Émile Zola a Henry James, passando por Isaac Babel, Henry de Montherlant, Jaroslav Hašek, Maurice Leblanc e Upton Sinclair. As opiniões públicas entraram em alvoroço. Em 1908, apesar da grande onda de ataques anarquistas ter refluído um pouco, o Presidente norte-americano Theodore Roosevelt fez questão de declarar que “when compared with the suppression of anarchy, every other question sinks into insignificance. The anarchist is the enemy of humanity, the enemy of all mankind; and his is a deeper degree of criminality than any other”, uma citação a que irei regressar.

Muitos outros acontecimentos menores rodearam estes ataques terroristas do virar do século. Um exemplo a acrescentar aos assassinatos que elenquei, dos muitos possíveis: os notórios Wall Street Bombings de 16 de Setembro de 1920 mataram 33 pessoas e feriram 400 no célebre Manhattan Financial District. Anarquistas associados com Luigi Galleani, um famoso insurrectionary anarchist americano de origem italiana, foram considerados responsáveis pela generalidade dos analistas, embora o caso nunca tenha sido oficialmente resolvido.

Um outro, que teve mais uma vez lugar nos Estados Unidos da América, diz respeito ao famoso ataque bombista vulgarmente conhecido com a Haymarket Riot. A história é edificante. Em Outubro de 1884, a Federation of Organized Trades and Labor Unions (FOTLU) of the United States and Canada estipulou que o dia 1 de Maio de 1886 constituiria a data limite para o estabelecimento legal, nos dois países, da semana de 8 horas. Uma outra federação laboral, os Knights of Labor, opôs-se-lhe. No 1º de Maio agendado, manifestações foram organizadas um pouco por todos os Estados Unidos: 10 mil trabalhadores reuniram-se em Nova Iorque, 11 mil fizeram-no em Detroit e cerca de 12 mil em Milwaukee, no Wisconsin. A maior manifestação teve lugar em Chicago, mobilizando 90 mil pessoas. Quatro dias mais tarde militares da Wisconsin National Guard alvejaram os manifestantes, no que ficou conhecido como o Massacre de Bay View, matando sete deles. Nos dias que se seguiram estima-se que 350 mil trabalhadores tenham feito greve por todo o país, em mil e duzentas instalações industriais; num dos casos, um encontro de grevistas em Chicago, a 3 de Maio, foi atacado pela Polícia, o que resultou na morte de quatro grevistas e em numerosos feridos. No dia seguinte, 4 de Maio de 1886, activistas anarquistas mobilizaram uma grande manifestação de protesto na Haymarket Square, uma zona comercial famosa de Chicago.

Quando, depois de discursos da praxe, a Polícia mandou dispersar o encontro e formou uma linha para canalizar os manifestantes para fora de Haymarket, e uma bomba foi lançada sobre as autoridades, matando um polícia, Mathias J. Degan, o resultado foi um pandemónio; a Polícia reagiu a tiro. Em consequência da autêntica batalha campal que se seguiu, pelo menos sete polícias e quatro trabalhadores foram mortos e numerosos outros feridos. Oito anarquistas foram presos e julgados pela morte de Degan e sete deles condenados à morte; o oitavo recebeu uma pena de 15 anos de cadeia; quatro dos sete condenados foram executados. August Spies, um dos revolucionários enforcados, reputadamente gritou antes da sua morte: “the time will come when our silence will be more powerful than the voices you strangle today”. Seria difícil exagerar o impacto destes incidentes na consciência colectiva: foi em memória de Haymarket que o 1º de Maio se tornou no Dia Mundial dos Trabalhadores.

Se sairmos dos Estados Unidos para a Europa, ou mesmo a América do Sul, constatamos não haver grandes diferenças ao nível destes ataques anarquistas menores. Também a França, por exemplo, tinha os seus dynamitards. Uma mão-cheia de casos bastará para o ilustrar: em 1886 Charles Gallo atirou uma garrafa de vitriol e disparou vários tiros contra os brokers da Bolsa de Paris. Poucos anos depois, uma bomba anarquista explodiu no Restaurant Very, em Paris, em 1892. Uma outra, poucos meses depois, teve como alvo uma companhia mineira e matou seis polícias, para além de desencadear uma onda de rumores, de acordo com os quais ácido teria sido derramado nos depósitos do sistema de abastecimento urbano de água, Igrejas teriam sido minadas, e haveria anarquistas dispostos um pouco por toda a parte preparados para ofensivas várias. Um ano mais tarde, em 1893, um jovem anarquista, Auguste Vaillant, que teve de fazer face ao desemprego, não conseguindo sequer garantir a sua alimentação nem a da sua amante e da filha, decidiu colocar uma quantidade substancial de pregos e explosivos numa panela de cozinha e lançar, a partir da galeria, o engenho para o hemiciclo da Chambre des Deputés. Apesar de milagrosamente não ter havido vítimas mortais, foi capturado e executado – e depois vingado por outra bomba, desta feita detonada no Café Terminus da Gare Saint-Lazare, por Émile Henry, matando um cliente e ferindo mais dezanove, enquanto estes ouviam deleitados uma banda musical. O perpetrador declarou que tivera como objectivo “acordar as massas” e lamentou apenas não ter atingido mais gente.

Por todo o Velho Continente este padrão viu-se repetido. Uma bomba artesanal foi guindada para o meio de uma parada monáquica em Florença, em 1878, uma segunda para o meio de uma multidão, em Pisa, dois dias depois. Em 1883 a Princesa alemã escapou por pouco a um outro ataque de um assassino, e em 1892 foi morto em Barcelona um militar espanhol, o General Martinez Campos, por um militante anarco-sindicalista catalão. A faena continuou: em 1893, duas bombas foram lançadas para o interior do Teatro Liceo, também em Barcelona, na primeira noite da saison de ópera, matando vinte e dois melómanos. Um ano depois, 1894, em Londres, no parque de Greenwich, um anarquista francês morreu acidentalmente quando estoirou a bomba que transportava, presumivelmente com o intuito de a colocar no célebre Observatório aí existente. Em 1896 pelo menos seis pessoas que participavam numa procissão religiosa em Barcelona foram trucidadas por uma bomba anarquista. Não vale decerto a pena continuar. Voltarei ao exemplo norte-americano, mas quero primeiro falar um pouco do perfil destes anarquistas do virar do século XIX para o XX e da reacção generalizada a estes actos que emergiu um pouco por todo o Mundo, com o intuito de tentar elucidar alguns dos seus mecanismos de recrutamento e mobilização e algumas das suas motivações.

Em primeiro lugar o perfil. Do ponto de vista nacional e sócio-económico a origem dos activistas apresenta regularidades não-dispiciendas. Começo na América do Norte. Como escreveu em 2003 Harvey W. Kushner, “at the end of the 19th century, most anarchists in the United States were recent immigrants from Europe”. No Novo Continente, e neste sobretudo nos EUA, encontraram terreno fértil para o tipo de acção política mais directa que tendiam a preferir e deram asas à sua pró-actividade militante e contestatária nesses termos. Também no que diz respeito à sua origem sócio-cultural são de sublinhar regularidades significativas; embora a maioria dos anarquistas tivessem origens sociais modestas e empregos que as reflectiam – dadas as características das hierarquias sociais vigentes nas sociedades industriais e pré-industriais de então – tal não era sempre o caso. Um número inesperado dos revolucionários era de extracção social mais alta, uns poucos (incluindo um dos mais importantes teóricos destes movimentos, Peter Kropotkin, um Príncipe russo) eram mesmo aristocratas, e o nível médio de instrução que a generalidade dos militantes patenteava, fosse ela formal ou informal, estava bastante acima do que, à época, era habitual. Curiosamente, para além de eslavos (russos, polacos, sérvios) e latinos (italianos, franceses, espanhóis), um grande número deles era de origem judaica centro-europeia, ou seja, tratava-se de gente oriunda de agrupamentos minoritários recém-emancipados e, por via de regra, altamente educados.

No que diz respeito às reacções havidas, comecemos por notar que face a esta proliferação de ataques anarquistas não deixaram de soar alarmes, e alarmes muito estridentes. O terrorismo transformou-se numa preocupação central da época. Em boa verdade, no entanto, nem a espectacularidade dos feitos maiores – os assassinatos em série de Reis, Imperadores, Príncipes, Grão-Duques, Presidentes, Primeiros-Ministros, e numerosíssimos outros líderes políticos nacionais menores – nem a profusão policentrada dos menores tiveram verdadeiras contrapartidas, no sentido forte de contrapartidas realmente à altura, no plano das consequências.

3. Não que não tivessem acontecido inúmeras coisas como resposta. Bem pelo contrário, houve numerosas reacções e um bom número delas teve implicações de fundo com que ainda hoje em dia convivemos. As reacções dos Estados, por exemplo, mais ou menos concertadas umas com as outras, foram essenciais na intrincação e consolidação dos sistemas nacionais de Polícia e de informações. A Scotland Yard britânica, o FBI norte-americano, e a Okhrana russa, são três casos do crescimento explosivo interno que teve lugar.

Vale a pena pormenorizar um pouco, embora de maneira muito sucinta, estes dois últimos casos, o americano e o russo. O embrião do que viria a tornar-se no FBI começou por uma tentativa gorada de combater o white slave trade de (prostitutas forçadas) através de um acto de criação de um grupo de Special Agents, levado a cabo em 1908 pelo Attorney General Charles Joseph Bonaparte, outro homem com um nome improvável, durante a presidência de Theodore Roosevelt, com o nome de Bureau of Investigation (BOI). A instituição foi depois reciclada para efeitos transformação numa entidade de luta anti-anarquista16. Como escreveu há uma quinzena de anos Athan G. Theoharis, apesar das preocupações demonstradas por inúmeras vozes, a politização do BOI foi muito rápida: “within a decade the Bureau began to monitor dissident activities. Between 1917 and 1921, exploiting the crisis of World War I and the postwar Red Scare, Bureau agents engaged in a number of controversial activities, including involvement in the so-called “slacker” raids of 1918, arresting alien radicals in January 1920 during the so-called Palmer Raids, and, more generally, monitoring a host of radical and liberal activists and officials-ranging from IWW leaders and members, U.S. Senator Robert LaFollette, federal judge George Anderson, Assistant Secretary of Labor William Post, and Irish nationalist Eamon deValera”. A reacção tinha sido iniciada mal McKinley foi assassinado por Czolgosz, quando o Congresso aprovou (e depois reforçou) legislação barrando a entrada de imigrantes anaquistas nos Estados Unidos e viabilizando a sua deportação; nos quinze anos seguintes duzentos e quarenta e sete militantes foram expulsos, entre os quais a famosa Emma Goldman, exilada para a Rússia.

No que diz respeito à Okhrana russa, a história é paralela: o seu nome completo era Okhrannoye otdeleniye, literalmente “Secção de Segurança”, e tratava-se de uma força policial secreta, criada e integrada, nos anos 80 do século XIX, no Ministério dos Assuntos Internos (o notório MVD) do Império Russo. Estava apoiada por um Corpo Especial de Gendarmes, e foi constituída, depois das primeiras tentativas de liquidar Alexandre II, com o objectivo explícito de proteger o Czar e a sua família de eventuais ataques de anarquistas, socialistas e outros revolucionários. A temida Okhrana estava sediada em S. Petersburgo e tinha extensões por todo o Império, bem como no estrangeiro, designadamente em Paris, de modo a melhor controlar e reprimir os anarquistas domésticos e os expatriados.

Tudo isto que aconteceu em resposta aos ataques anarquistas e anarco-sindicalistas teve também uma dimensão internacional e mobilizou esforços de concertação entre muitos dos Estados da época. Talvez não seja abusivo ancorá-los numa dimensão cognitiva. A convicção geral, neste período de furor anarquista, era, com efeito, a de que não bastava um crescimento das Polícias nacionais: o imprescindível seria um aumento da sua cooperação além fronteiras. A razão para tal tomada de posição é fácil de compreender. As políticas estaduais europeias e norte-americana de combate ao terrorismo anarco-sindicalista radicavam por norma na convicção – ou, pelo menos na presunção – de que defrontavam um inimigo, senão unitário (cujo nome, corria, seria o de Internacional Negra), em todo o caso bem organizado numa rede internacional robusta, coesa, e sincronizada. De qualquer modo, um forte grau de “internacionalização” – ou, em todo o caso, de cosmopolitismo – imprimia uma marca nítida aos acontecimentos. Uma enorme percentagem dos agressores, por exemplo e como vimos, era de origem sul-europeia ou eslava. E tanto as ideologias propaladas quanto as tácticas utilizadas manifestavam evidentes semelhanças de família umas com as outras.

Num padrão característico, no plano da tão ambicionada coordenação intergovernamental da luta contra o terrorismo anarquista, no entanto, não se conseguiu ir longe. Não que se não tenham esboçado condições para o lograr; muito pouco, porém, se concretizou do muito que fôra esboçado. Um rápido par de exemplos. Numa magna Conferência Internacional Anti-Anarquista que abriu em Roma a 24 de Novembro de 1898, no Palazzo Corsino – e que contou com a participação de 21 Estados – foi decidido por unanimidade que o anarquismo não era “uma doutrina política bona fide”: mais do que actos políticos, argumentou-se, o que estava em jogo eram “ofensas criminais”, e os anarquistas capturados seriam por isso extraditáveis. Mas na prática tal raramente chegou a acontecer: a cooperação policial de início ansiada aumentou, de facto, mas sem que cada Estado tivesse abdicado do direito de decidir por si se lhe convinha ou não proceder a uma extradição, fossem quais fossem os motivos para tanto. A resistência estadual, como depressa se tornou claro, não era avulsa nem um simples fenómeno de conjuntura. Uma segunda tentativa, preparada durante dois anos, e ensaiada em 14 de Março de 1904, em S. Petersburgo – a da celebração do intitulado Protocolo de S. Petersburgo – falhou de novo redondamente, desta feita na tentativa de criar uma “Interpol” anti-anarquista, dada a recusa de dois dos participantes, os Estados Unidos e a Itália (ambos dos Estados mais envolvidos na questão) em assinar o acordo arduamente negociado por dez Estados do Norte, Centro, e Leste da Europa.

Estas dificuldades não ocorreram, porém, apenas ao nível dos Estados acossados pelos movimentos terroristas do período. É curioso notar que, do mesmo modo que se revelou impossível conseguir coordenar esforços intergovernamentais para uma luta anti-anarquista mais eficaz, também os anarquistas, eles próprios, pese embora não estivessem atidos a fronteiras físicas ou a inércias e resistências “soberanistas” patentes, se viram incapazes de se articular uns com os outros. Tudo se passou como se o âmbito do cosmopolitismo possível – nos Estados e fora deles – fosse limitado. A verdade era que, entre os agrupamentos terroristas, não existiam quaisquer formas eficazes de planeamento ou coordenação internacional ou centralizada e, mesmo ao nível nacional – no qual as organizações tendiam por norma a ser bastante mais densas – os ataques anarquistas viam-se por via de regra levados a cabo por pequenas cliques e peer groups (muitas vezes círculos de amigos, correlegionários, por vezes parentes), entidades diminutas em que essas poucas pessoas tipicamente colaboravam umas com as outras em células operacionais exíguas.

O que não significa que se não fossem constituindo autênticas comunidades baseadas numa intensificação dos contactos mantidos tanto dentro como entre os agrupamentos anarquistas. Um só exemplo bastará. As petites histoires por trás dos assassinatos que foram tendo lugar em catadupa são muitas vezes edificantes quanto ao carácter sui generis do simbolismo da época e quanto a alguns dos mecanismos comunicacionais utilizados para ajudar na criação de uma comunidade epistémica pan-anarquista. O papel das “palavras de ordem”, por exemplo, era fundamental. Um só caso exemplar: Sadi Carnot, foi esfaqueado por Jeronimo Caserio, um padeiro italiano anarquista exilado em França, enquanto proferia um discurso em Lyon. Ao espetar a sua faca em Carnot, perfurando-lhe o fígado, Caserio terá exclamado “Vive la Révolution!”. Ao ser condenado à morte gritou com fervor “Vive la révolution sociale!”. No dia seguinte ao da morte do Presidente Carnot, a sua Mulher recebeu uma fotografia de Ravachol (um outro anarquista famoso26, também guilhotinado durante o consulado do seu marido), expedida um ou dois dias antes pelos correios por Caserio, com as palavras: “Il est bien vengé”. Sadi Carnot era odiado pelos anarquistas por ter apoiado a promulgação das graficamnete apelidadas lois scélérates, leis que restringiam severamente a liberdade de imprensa, e por ter recusado o perdão presidencial a um deles, Auguste Vaillant, o homem despeitado que tinha perpetrado um ataque à Chambre des Deputés, lançando uma bomba artesanal das tribunas para o hemiciclo. Apesar de, como indiquei, Vaillant não ter conseguido fazer vítimas mortais nesse ataque, foi condenado à guilhotina e, antes de morrer, gritou “Vive l’anarchie, ma mort sera vengée!”. Tal como indiquei, foi-o de facto, pouco tempo depois, por um correlegionário que quis, com o seu gesto de retaliação, “acordar as massas” e que lamentou não ter logrado mais matar vítimas com a sua vingança pública e mobilizadora.

Em boa verdade, tudo isto escondia um enorme deficit organizacional. Na realidade, a colaboração táctica e até estratégica conseguida pelos vários agrupamentos anarquistas era de geometria variável, e seria decerto muitas vezes intensa; mas a coordenação entre tais grupos era muitas vezes mais difusa e indirecta, e em muitos casos mesmo inexistente. Mais ainda, um recuo revela-nos que o padrão era uniforme: à medida que se alargava o âmbito de inclusividade, com efeito, o crescendo de esbatimento organizacional mantinha-se: as ligações entre os “meta-grupos” era ainda mais ténue e, por norma, menos directa.

Embora a existência de uma conspiração mundial fizesse parte integrante da retórica “político-militar dos Estados, na realidade não havia nenhum complot organizado no sentido clássico do termo, nem no plano interno de cada agrupamento nem, no externo, entre eles. Em boa verdade, aliás, apesar da propagação cosmopolita de ideias e convicções político-revolucionárias, muitas vezes só por abuso de linguagem se poderia alegar existir uma qualquer ideologia, ou ou mesmo uma verdadeira tradição organizacional anarquista genérica, e em resultado tanto as ideologias quanto as formas organizacionais tendiam em muitos casos a parasitar organizações e aspirações étnicas e nacionalistas locais e a nelas se incrustar. A tão famosa quão infame “Mão Negra” sérvia, a que fiz já alusão – que depois de matar o Rei Alexandre a a Rainha Draga da Sérvia, planeou e executou o assassinato do futuro Arquiduque Ferdinando da Áustria, que se tem argumentado desencadeou a I Guerra Mundial – ou o Narodnya Volya (“a vontade do povo”), o já referido grupo revolucionário russo, serão disso decerto os exemplos mais paradigmáticos.

Na sua generalidade, é certo, a motivação política que os agrupamentos anarquistas tinham era patente. Mas a inépcia que manifestaram na prosecussão dos objectivos que arvoraram ter a esse nível também o era. Em todo o caso, porventura a maioria dos anarquistas professos exprimiam-se regular e vocalmente contra o uso político da violência (por exemplo P. Kropotkin), indiciando assim divisões internas que claramente militavam contra uma qualquer unidade geral deste autêntico conglomerado de movimentos. Uma maior resolução de imagens demonstra bem esse gradiente decrescente. Quaisquer sincronizações, coordenações e até articulações, só com dificuldade são congruentes com clivagens; e não raramente clivagens profundas foi o que na prática se verificou, de maneira persistente e intensa, nos relacionamentos dos movimentos anarquistas uns com os outros. Frequentemente, tais clivagens resultaram mesmo em fracturas violentas, que revelaram não-miscibilidades radicais. Muitas vezes, também, longe de se poder falar de quaisquer concertações (cuja existência seria fundamental para se fazer alusão, sequer, a uma eventual co-optação), o que se iam verificando foram dissonâncias e “arritmias funcionais” que as inviabilizaram de forma irreversível. Se para reconciliações teria sido imprescindível que houvesse consensos mínimos em que elas pudessem radicar – ainda que tão-somente consensos negativos e parcimoniosos – a verdade é que mesmo esses brilharam pela sua ausência. Apesar de diversas tentativas, os agrupamentos anarquistas nunca souberam lidar com a sua própria diversidade.

A conclusão é iniludível. O que parecia reinar entre os grupos anarquistas, na volta do século XIX para o XX, era a anarquia organizacional. Temores de que haveria conluios submersos e clandestinos redundavam em puras fantasias, que ora refletiam erros de perspectiva, ora exprimiam posturas tácticas instrumentais – ambas respostas compreensíveis num Mundo em mudança acelerada. Os anarquistas tinham projectos de modificações sociopolíticas profundas. Mais ainda, estavam muitas vezes dispostos a actuar, dando o corpo ao manifesto. Mas nem os movimentos anarquistas, nem os os anarco-sindicalistas foram capazes de formar forças conjuntas pró-activas: são mais certeiramente encaráveis como reacções largamente espontâneas e desgarradas a indeterminações conjunturais soletradas pela reconfiguração do Mundo.

O fim da história é bem conhecido. Depois da Grande Guerra, a União Soviética bolchevique começou por primeiro co-optar o militantismo anarquista internacional como força política “global” através do Comintern (também conhecido como a III Internacional, que durou de 1919 a 1943) para depois fazer rápida marcha atrás, dissolvê-lo, e, primeiro com Lenine e depois sempre pela mão de Josef Estaline – no que não pode, para muitos, deixar de ter sido uma lição inesquecível de sobriedade – tirar o tapete debaixo dos pés aos anarquistas e ao seu papel na liderança político-militar, do lado Republicano da Guerra Civil espanhola. Esta reacção tinha antecedentes. As tomadas firmes de posição dos “marxistas” contra o respeitado teórico anarquista Mikhael Bakunin, no Congresso da Haia de 1872, ligado à I Internacional, e o isolamento a que estas condenaram ao longo dos anos que se seguiram a pouco convincente – mas famosíssima – International Workingmen’s Association, finalmente levaram a água ao seu moinho. Ferido de morte, o anarquismo “organizado” foi-se extinguindo como ameaça activa, acantonando-se em bolsas cada vez mais isoladas, mais idealistas e, por conseguinte, cada vez menos eficazes. A ritmos e com estertores variados, o anarquismo foi desaparecendo na Itália, em Espanha, nos Balcãs e no mundo eslavo. Não se extinguiu, e continua muitas vezes ainda a levantar a cabeça: mas a aura ameaçadora em que os movimentos se viam envoltos desvaneceu-se, e os anarquistas são hoje em dia encarados como pouco mais do que um irritante com que nos habituámos a conviver.

Antes de avançar mais, cabe-nos inquirir quanto aos fundamentos últimos da enormidade da ameaça sentida face à actuação dos anarquistas, não tanto no que diz respeito aos estragos causados (que foram muitos e dolorosos, porventura até chocantes, se bem que politicamente assaz improcedentes), mas antes em termos do sentimento agudo de impotência logístico-organizacional induzido pela aparente incapacidade de lhes pôr cobro de maneira definitiva. O que é que neles mais assustava os poderes estabelecidos? A resposta parece-me óbvia. Aquilo que tornava o anarquismo num desafio tão premente como reconhecido e temido pelo centros de poder instituído estava sem dúvida ligado às transformações radicais, sentidas ao nível dos transportes, da comunicação, da economia, da política, e das novas técnicas e tecnologias, muitas delas com um potencial militar evidente, a que a fruição da Revolução Industrial encetada uma dezena de decénios antes tinha dado azo. Para o compreender, basta listar algumas delas. Sob a égide das doutrinas iluministas, e face às pressões populares desencadeadas pela Revolução Francesa32, as Monarquias europeias – muitas delas monarquias absolutas – tinham sido mudadas em monarquias constitucionais e até em democracias liberais mercantis. Pessoas, ideias, bens, e capitais circulavam por entre fronteiras com uma fluidez e facilidade sem contrapartidas, mesmo se as compararmos com a época actual de globalização. Um exemplo paradigmático: em 1912 – apenas dois anos antes do início da Grande Guerra – só dois Estados, o Império Russo e o Sultanato Turco, exigiam a apresentação de passaportes para a travessia de linhas de fronteira. Com a evolução das coisas tudo isso se alterou, e foi apenas com os acordos mundiais de comércio pós-GATT de meados-finais dos anos 90 do século XX que os fluxos internacionais de capital conseguiram recuperar o grau de liberdade que tinham logrado até à I Guerra Mundial33. A montante e a juzante de tais mudanças induzidas pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial que lhe esteve associada, vinham transformações tecnológicas de monta, ricas em riscos e oportunidades.

Efectivamente, os riscos e oportunidades potenciados eram de peso. A transição do século XIX para o XX deu palco a uma época de mudanças profundas. Alterações em várias frentes que, como que num soluço em câmara rápida, em fast forward, tornaram o Mundo cada vez mais interdependente. A telegrafia, depois a TSF, os jornais diários de larga circulação, o surto dos caminhos-de-ferro, os primeiros paquetes transoceânicos, os automóveis e os dirigíveis e aviões afloraram e floresceram nesse período. Em 1912 foi instalado o primeiro serviço de rádio-telegrafia trans-Pacífica, ligando S. Francisco, na costa noroeste dos Estados Unidos, a Honolulu, no arquipélago distante do Hawaii, um pontilhado disposto no meio do Oceano Pacífico. O território norte-americano e a Europa estavam já há uma cinquentena de anos “conectados” – bem como conectados uma à outra por meio de novos (e poucos anos antes inimagináveis) cabos submarinos transatlânticos, o primeiro dos quais, que se avariou quasi de imediato, datava de 1858, seguido de dois outros, bastante mais estáveis, colocados nos fundos marinhos em 1865 e 1866.

A contracção do espaço e do tempo começou a acelerar o passo. Nunca antes a velocidade das mudanças à escala planetária fora tão grande – nem antes nem porventura depois, designadamente hoje com a Revolução Digital que um tão enorme impacto está a ter no Mundo actual. As promessas de melhorias não se viram porém realizadas de maneira homogénea e, seguramente, não atingiram todos: o que os franceses chamavam Belle Époque não se tornou numa idade dourada para todos quantos a ela aspiravam.

Para o que aqui nos interessa, contudo, um dos pontos mais importantes foi a consciência generalizada da possibilidade de os agrupamentos terroristas anarco-sindicais adquirirem o que eram, então, as novas “armas de destruição em massa” emergentes. As metralhadoras – embora de início demasiado pesadas para uma utilização fácil por terroristas – tinham sido inventadas (se bem que muito pouco usadas) durante a Guerra da Secessão norte-americana e utilizadas, com efeito devastador, na Guerra dos Boers, na África Austral34. A dinamite, inventada também no mesmo intervalo pelo industrial sueco Alfred Nobel, e os seus sub-produtos (incluindo bombas altamente explosivas de pólvora, lignite, ou nitroglicerina, e granadas-de-mão fabricadas com os mesmos compostos), tal como a utilização de gases letais, incapacitantes ou paralisantes, constituíam armas para cuja obtenção tanto os grupos anarquistas como os Estados corriam – e faziam-no com um notável se bem que terrível sucesso. Para a bitola do período, tratava-se, com efeito, de instrumentos assustadores de morte e desestabilização.

Mas o temor sentido não radicava apenas no reconhecimento do potencial assustador de expansão e intensificação das acções terroristas anarquistas e anarco-sindicais. A este medo depressa se juntou um sentimento generalizado de frustração e impotência. Por muito que as tentassem ultrapassar, os Estados e os novos serviços de informações e Polícia em desenvolvimento esbarravam com dificuldades na detecção e na “desmontagem” dos grupos anarquistas. Os motivos para tanto prendiam-se com mutações adaptativas na orgânica interna destes grupos. O medo radicava, também, na constatação crescente de que os tão temidos anarco-sindicalistas dispunham de novas tecnologias organizacionais que lhes forneciam uma espécie de escudo defensivo que os tornavam quase inexpugnáveis. Com efeito, novas formas de organização, temíveis na sua eficácia, tinham sido desenvolvidas e, no small world dos combatentes anti-Estado e anti-capital, aproveitando os “atalhos epistémicos” existentes, esses formatos organizacionais inovadores foram rapidamente adoptados um pouco por toda a parte. Nesse âmbito restrito, pelo menos, o cosmopolitismo funcionava.

A emergência destas novas formas organizacionais foi adaptativa. Um esboço de levantamento genealógico do aparecimento e proliferação da “nova tecnologia organizacional” põe em relevo a lógica adversarial da sua cristalização: desde o período pioneiro do revolucionário francês Louis Auguste Blanqui, em meados-finais do século XIX, que novas estruturas organizacionais (a organização dos militantes e activistas em células encobertas) tinham sido pensadas com o intuito de resistir à penetração e aos embates por organizações hostis36. A estrutura organizacional escolhida foi-o, efectivamente, com o intuito de reduzir, na medida do possível, a infiltração, a penetração, e a destruição que seguramente ocorreria ao agrupamento como um todo, caso um ou mais dos seus membros fossem capturados, interrogados, e falassem.

Era raro que células encobertas tivessem mais de uma dúzia de membros, e nalguns casos tinham apenas dois ou três. Outra das características distintivas fundamentais que exibiam era a ausência de comunicação explícita, generalizada e contínua entre células, mesmo quando se tratava de células que convergiam para as mesmas finalidades. Deste modo, a maioria dos membros de uma dessas entidades apenas sabia a identidade das outras pessoas que com eles estavam integrados nessa mesma célula, e só o líder tinha conhecimento da identidade de outros líderes de outras células – ou pelo menos dos de algumas, e nalguns casos conhecidos fazendo parte, com estes, de uma “célula de líderes de células” – e lograva assim comunicar com eles.

As coordenadas da mecânica de cautela e salvaguarda conseguida com este autêntico subterfúgio organizacional defensivo são fáceis de equacionar, e vale a pena que nos detenhamos um pouco neste ponto, posto que ele tem enormes implicações para uma compreensão cabal da macro-estrutura do agrupamento em causa. Como vimos, dada a ausência de comunicação continuada e directa entre células, não era raro que os membros de cada uma delas tivessem apenas pouca, ou mesmo nenhuma, ideia quanto a coisas tão comezinhas como saber quem mais estaria a agir pela mesmíssima causa, ou como o estava a fazer. Por outro lado, dado o número reduzido de membros de cada célula, membros capturados e cativos, inimigos infiltrados, ou agentes duplos tinham pouco a confessar, visto não saberem quase nada nem sobre o agrupamento a que pertenciam, nem porventura sequer sobre a estrutura da organização como um todo38. A ausência de uma comunicação generalizada entre os sub-grupos e a sua pequena escala – aquilo que é conhecido como a compartimentação dos agrupamentos organizados nestes termos – tinham como objectivo reduzir em flecha o risco de que a organização maior se visse comprometida por acções hostis de qualquer tipo montadas pelos seus inimigos. E isto tornava os grupos practicamente inexpugnáveis.

Mas também reduzia a sua capacidade de coordenação uns com os outros, o seu potencial de sincronização e sintonização, e logo a sua eficácia conjunta. Em simultâneo, no entanto, tornava-os num inimigo duplamente alarmante, porque eram tidos como invisíveis e indestrutíveis. A doutrina da propaganda by the deed e os assassinatos personalizados levados a cabo suscitavam um temor que a todos batia à porta40. Não admira que fossem tão temidos pelos Estados e pelas opiniões públicas. Para um observador contemporâneo, só com dificuldade pode passar despercebida a evidência de que as motivações, implicações, e consequências políticas, sociais, e económicas da vaga anarquista que afligiu o Mundo ocidental na volta do século XIX para o XX, tem tido, em muitos sentidos, como que uma réplica (no sentido tectónico da expressão) na passagem do século XX para o XXI.

As diferenças entre um caso e o outro, como é óbvio, são tremendas; mas as semelhanças ainda são mais impressionantes. Os ataques “democratizaram-se” e tornaram-se mais mediáticos. Em consonância com essas alterações, mudaram os pontos de aplicação das actuações e os métodos nelas utilizados. As acções começaram a ser conhecidas pelos nomes das cidades em que tinham lugar, os assassinos massificaram a sua actuação e passaram na maior parte dos casos a tomar como alvos indiscriminados vítimas cada vez mais numerosas e anónimas; em paralelo, em vez de liquidar personagens que representavam e personalizavam o poder, em boa sintonia com o novo Espírito do Tempo, passaram à destruição de ícones e a fazê-lo, tanto quanto possível, de maneiras eivadas de uma forte carga simbólica.

4. Disse que voltaria à reacção norte-americana a estes acontecimentos e é o que agora irei fazer. As homologias com o presente são notórias, por detrás de formulações retóricas nem sempre muito parecidas umas com as outras. Limito-me a uma mão cheia de exemplos indicativos. Depois de duas dezenas de anos de assassinatos selectivos de líderes políticos na Europa e no rescaldo da morte de William McKinley, na sua primeira Annual Message ao Senado e à Câmara de Representantes norte-americanos, a 3 de Dezembro de 1901, o novo Presidente recém-empossado (era o Vice-Presidente de McKinley), Theodore Roosevelt, declarou de maneira retumbante que os anarquistas eram, por natureza, gente sujeita a “evil passions” e constituíam os mais perigosos “deadly foes of liberty” contemporâneos. Nas palavras que utilizou para caracterizar Leon Czolgosz, o homem que vitimara o Presidente McKinley, Roosevelt comentou, com fervor, que o “President McKinley was killed by an utterly depraved criminal belonging to that body of criminals who object to all governments, good and bad alike, who are against any form of popular liberty if it is guaranteed by even the most just and liberal laws, and who are as hostile to the upright exponent of a free people’s sober will as to the tyrannical and irresponsible despot”.

Em Maio de 1904, no que foi apelidado de The Roosevelt Corollary to the Monroe Doctrine, o famoso Presidente alargou amplamente a missão que desenhara, e que consistia em eliminar o anarquismo e os terroristas, para uma missão imperial a levar a cabo no Mundo inteiro, intervindo fosse em que Estado fosse de modo a garantir a sua protecção face ao “mal estrangeiro” e a preservar esse Estado e o Mundo do caos. A fraseologia utilizada por Theodore Roosevelt foi veemente e nela ouviam-se, de novo pela via de uma defesa intrasigente do perímetro norte-americano de segurança e defesa a que no princípio do século XIX James Monroe fizera alusão, os ecos do Manifest Destiny que o excepcionalismo norte-americano – que Roosevelt já antes ajudara a cristalizar no início da sua carreira política pública internacional, enquanto Assistant Secretary of State of the Navy – desde há muito vinha fazendo seus, e formando como que um mapa para o que se iria seguir uma centena de anos mais tarde: “chronic wrongdoing, or an impotence which results in a general loosening of the ties of civilized society, may in America, as elsewhere, ultimately require intervention by some civilized nation, and may lead the United States, however reluctantly, in flagrant cases of such wrongdoing or impotence, to the exercise of an international police power”45. Roosevelt foi explícito quanto aos fundamentos e ao alcance do “corolário”: “in asserting the Monroe Doctrine, in taking such steps as we have taken in regard to Cuba, Venezuela, and Panama, and in endeavoring to circumscribe the theater of war in the Far East, and to secure the open door in China, we have acted in our own interest as well as in the interest of humanity at large. There are, however, cases in which, while our own interests are not greatly involved, strong appeal is made to our sympathies…. In extreme cases action may be justifiable and proper. What form the action shall take must depend upon the circumstances of the case; that is, upon the degree of the atrocity and upon our power to remedy it”. Talvez mais interessante em termos comparativos, a derrota definitiva do anarquismo tornou-se para Teddy Roosevelt, em 1908, quatro anos depois, missão histórica central da sua Administração; já antes citei a sua reacção: “when compared with the suppression of anarchy, every other question sinks into insignificance. The anarchist is the enemy of humanity, the enemy of all mankind; and his is a deeper degree of criminality than any other”.

Em resultado destas suas convicções, Roosevelt tinha, já em 1901, na sua 1st Message to Congress, proposto o germe daquilo a que hoje chamaríamos uma espécie de doutrina preventiva de repressão das actividades anarquistas: “the anarchist, and especially the anarchist in the United States, is merely one type of criminal, more dangerous than any other because he represents the same depravity in a greater degree. The man who advocates anarchy directly or indirectly, in any shape or fashion, or the man who apologizes for anarchists and their deeds, makes himself morally accessory to murder before the fact”. Continuou, generalizando e fundamentando “there are no wrongs to remedy in his case. The cause of his criminality is to be found in his own evil passions and in the evil conduct of those who urge him on, not in any failure by others or by the state to do justice to him or his. He is a malefactor and nothing else. He is in no sense, in no shape or way, a ‘product of social conditions’, save as a highwayman is ‘produced’ by the fact that an unarmed man happens to have a purse. It is a travesty upon the great and holy names of liberty and freedom to permit them to be invoked in such a cause. No man or body of men preaching anarchistic doctrines should be allowed at large any more than if preaching the murder of some specified private individual. Anarchistic speeches, writings, and meetings are essentially seditious and treasonable”.

Será possível delinear um paralelo contemporâneo para este tipo de afirmações e receios? Creio que sim. Oiçamos o Presidente George W. Bush, quase um século mais tarde, em 2001: “how will we fight and win this war? We will direct every resource at our command – every means of diplomacy, every tool of intelligence, every instrument of law enforcement, every financial influence, and every necessary weapon of war – to the disruption and to the defeat of the global terror network”. O contexto foi também, como sabemos, o de um novo “corolário” da Doutrina de Monroe: “our response involves far more than instant retaliation and isolated strikes. Americans should not expect one battle, but a lengthy campaign, unlike any other we have ever seen. It may include dramatic strikes, visible on TV, and covert operations, secret even in success. . . From this day forward, any nation that continues to harbor or support terrorism will be regarded by the United States as a hostile regime”. Em guisa de fundamentação, logo a 11 de Setembro, num Address televisivo aos norte-americanos e ao Mundo, Bush afirmara famosamente, e com clareza, que “we will make no distinction between the terrorists who committed this act and those who harbour them”. Talvez, no entanto, a expressão mais clara da criminalização generalizada a que Bush, na esteira de Roosevelt, condenou a actuação dos ataques terroristas do 11 de Setembro tenha sido formulada a 20 de Setembro, ao declarar que “our grief has turned to anger, and anger to resolution.[…] Whether we bring our enemies to justice or bring justice to our enemies, justice will be done” e ao concluir com a asserção segundo a qual “this conflict was begun on the timing and terms of others; it will end in a way and at an hour of our choosing”.

Oiçamos algumas das transformações lógico-formais destas declarações, as que porventura mais alargaram o seu âmbito, que Bush pronunciou a 29 Janeiro de 2002, no primeiro State of the Union Address que se seguiu ao ataque da al-Qaeda: “American will lead by defending liberty and justice because they are right, true and unchanging for all people everywhere. In a single instant, we realized that this will be a decisive decade in the history of liberty—that we have been called to a unique role in human events”. A 16 de Julho de 2002, estendendo ainda mais o enquadramento temporal proporcionado, o Presidente Bush apresentou o seu plano de segurança doméstica norte-americana com um apelo de ressonâncias Rooseveltianas: “terrorism is the greatest threat to the United States in this century. We must rally our entire society to overcome a new and very complex challenge”.

As ressonâncias são patentes, e muitas outras poderiam ser aduzidas. Alguns exemplos: esforços nem sempre bem sucedidos foram feitos para uma maior coordenação internacional na luta contra o terror (que Bush chama the war on terror), os EUA declararam ter o direito, e a obrigação até, de agir unilateralmente caso não tivessem outra hipótese, policiando o Mundo, e houve uma recusa explícita de considerar os terroristas como mais do que criminosos na pior acepção do termo, e de os tratar como tal, porventura largamente em resultado da sua invisibilidade e aparente indestrutibilidade.

5. Não pretendo, evidentemente, sugerir muito com a comparação que tenho vindo a esboçar. O que quero sublinhar é simplesmente a convicção partilhada de que estaríamos perante adversários altamente organizados e sincronizados entre si, e a ideia que circulava segundo a qual a ameaça que constituíam era potencialmente fatal para os Estados caso não fosse combatida, e combatida com a devida firmeza e ferocidade.

Note-se que, mais uma vez, o contexto externo é propício a reacções deste tipo. Passou uma centena de anos51. Estamos, de novo, perante mudanças de peso no Mundo, mudanças que – de início, pelo menos – deixam para trás, mais uma vez, largos sectores da população. A evolução tecnológica ameaça, de novo, dar armas temíveis, instrumentos de destruição verdadeiramente maciça –incomparavelmente mais letais do que há um século – aos revolucionários mais vocais que lideram aqueles cujas expectativas se vêm frustradas de participar nas alterações-melhorias profundas de que usufruimos. Não é, por isso mesmo, surpreendente que surjam atitudes e reacções paralelas das vítimas de ataques terroristas como aquelas que acabei de sublinhar. Efectivamente, as continuidades são muitas. É certo que as diferenças também: os alvos escolhidos passaram a ser menos personalizados e mais indiscriminados, fossem eles individuais ou colectivos – porventura tendo em vista as novas características do Mundo do pós-guerra e a natureza dos objectivos prosseguidos: mais do que atingir Chefes de Estado, Primeiros-Ministros, ou outros líderes políticos, aponta-se nas actuações terroristas de hoje, para “audiências” mais amplas. Quero, todavia, pôr em realce tanto divergências quanto paralelismos.

Tomemos como primeiro exemplo o dimensionamento semiológico dos meios materiais utilizados. As facas, pistolas, e espingardas, usadas em finais de oitocentos e as duas décadas iniciais de novecentos, na rua ou em salões, por assassinos individuais ou por pequenas células com poucos membros, perderam protagonismo. Tipicamente, as acções levadas a cabo na segunda metade do século XX envolveram bombas em automóveis, autocarros, bares, restaurantes, supermercados, hotéis, barcos e aviões, colocadas e feitas explodir não por assassinos individuais – ou pequenos grupos “personalizados” – mas antes por agrupamentos maiores e mais anónimos. As bombas, como é óbvio armas relativamente menos selectivas do que as facas, as pistolas ou as espingardas – ou mais “democráticas” do que elas, no carácter indiscriminado da letalidade que exibem52 – têm sido os seus instrumentos “políticos” de eleição; e tratava-se de bombas bem mais poderosas do que as granadas artesanais dos dynamitards anarquistas do passado.

Acrescentou-se-lhes uma maior (mais extensa e mais intensa) preocupação comunicacional, num novo Mundo tecnológico em que as televisões, os telemóveis e a Internet tinham vindo substituir os pombos-correio, a telegrafia sem fios e os jornais diários. As implicações convergentes desta despersonalização e deste autêntico alargamento de banda não foram de menosprezar: quando os destinatários a atemorizar se transformaram em “constituências” mais latas, muitas das acções terroristas começaram a ter lugar em prime-time e, em consonância com isso mesmo, passaram a incluir por design contornos simbólicos que as metamorfoseavam em gestos políticos públicos tão comercializáveis quão inesquecíveis.

Também ao nível da recepção, como depressa se tornou para todos evidente, muito se tinha alterado: de uma preocupação de fundo de polícias, políticos, romancistas, e repórteres, o terrorismo apareceu em posição central nos radares de crise de serviços de informações, de militares, e de diplomatas. A uma espécie de escalada armamentista em termos de instrumentos, acções, reacções, respostas e ripostas, veio juntar-se um crescendo tanto na difusão almejada quanto na despersonalização dos ataques quanto, ainda, no que respeita ao grau de internacionalização pretendido.

Em paralelo, face às novas tecnologias de contenção, por um lado, e, por outro, às formas emergentes de comando e controlo, as formas e estruturas organizacionais típicas dos vários agrupamentos terroristas complexificaram-se. Uma nova era fora encetada. Modalidades directas e crescentemente despersonalizadas de acção e participação política violenta tinham-se não só instalado, mas entrado em velocidade de cruzeiro. Os novos formatos de implantação de terrorismo que hoje em dia enfrentamos são a face mais recente desta sequência-evolução complexa54. Mudou o que seria de esperar que mudasse. Na global village, como que paradoxalmente, instalou-se uma deslocalização do terror, e com ela acentuou-se mais ainda o anonimato e a impessoalidade. Uma modificação em duas dimensões. Por um lado, o que antes era privado – ou, em todo o caso, o que fora local – como que passou a público. Numa fase mais aguda da multi-polarização acelerada daquilo que V.I. Lenine apelidou da “correlação de forças” – em que a oposição de fundo ao sistema internacional deixou de estar monopolizada por um bloco político-ideológico – as propensões do pós-guerra viram-se pulverizadas, aceleraram o passo, e extremaram-se. Em consonância homológica com essa alteração, a sua dimesão semiológoca mudou também os seus pontos de aplicação, e as palavras de ordem de ontem viram-se mutadas nas prédicas cosmológico-escatológicas, por vezes messiânicas, mas por norma apocalípticas de hoje. Por outro lado, este descentramento “temático” associou-se a uma disseminação geográfica. Com o estertor da ordem internacional bipolar e a emergência progressiva de espaços públicos globais, os lugares de actuação escolhidos viram-se multiplicados. Mais: na comunidade política de extensão planetária emergente, as vozes recém-adquiridas tornaram-se explicitamente dissonantes. A estridência passou a dar-lhes o mote, num Mundo cada vez mais denso e multivocal. De par com isso, na “aldeia global” subiram de tom e aumentaram em complexidade as “contestações de bairro”, sobretudo as que começaram a eclodir nas periferias “suburbanas”. O local, como era decerto inevitável, foi cristalizando como subproduto do global, e ele próprio, curiosamente, se deslocalizou. A exigir reconhecimento, as identidades explodiram e multiplicaram-se. Raramente conseguiram coordenar esforços comuns. Porquê? Talvez se possa ler nisto um “neo-medievalismo” anunciado por Hedley Bull56, ou, em vez disso, uma “neo-tribalização” por subsidiariedade democrática, vislumbrada por Benjamin Barber, que fervilha como efeito secundário. Ou porventura vislumbrar, até, uma forma pós-moderna de “tradicionalismo”. Sendo-o, poder-se-ia argumentar, ecoando o “anjo da História” de Walter Benjamin, por avançar para o futuro às arrecuas, de olhos postos no passado.

O que podemos aventar como motivos para tais continuidades e tais transformações? Num Mundo cada vez mais desigual, interdependente, e dialógico, modalidades de conflito como as que temos vindo a experienciar eram seguramente inevitáveis. O que não sabíamos – e em boa verdade ainda hoje não sabemos – é a escala que podem ter, a sua alçada potencial, ou os níveis de terror e destruição que podem vir a atingir. O que sabemos, isso sim, é que os sinais não são nada animadores. Não conseguimos sequer adivinhar as formas – quaisquer que elas venham a ser – que assumirão. Intuímos o risco de poderem vir a ser utilizadas armas de destruição massiva, agora que as há e que a sua acessibilidade, como temos vindo a verificar, é cada vez menos fácil de controlar; e posto que a sua eventual utilização parece ir no sentido em que o crescendo de privatização, publicitação, e devastação moral almejada têm vindo a progredir de modo imperturbável59, aterrorizam-nos.

Em todo o caso, os riscos reais são hoje muitíssimo maiores do que os existentes na passagem do século XIX para o XX. Sabemos que há agora a perigo de autênticas armas de destruição em massa, cada vez mais facilmente disponíveis, virem a ser utilizadas – e sê-lo-ão, decerto, se os agrupamentos terroristas contemporâneos as conseguirem. A capacidade de destruição de novos instrumentos químicos, biológicos, ou nucleares, é enorme. Há, em todo o caso, que ter em linha as mudanças estruturais que têm vindo a alterar os tabuleiros, eles mesmos, em que tem lugar a acção política subversiva deste tipo de entidades.

A crescente urbanização é uma delas. Muitas vezes o século XXI tem sido apelidado de “o século urbano”. Pela primeira vez na História, a maioria da população mundial vive agora em cidades. O número, prevê-se, irá aumentar e a projecção é que, em 2030, 60% da população do Mundo viverá em cidades. Talvez o mais notório seja o desfasamento crescente que se verifica entre esta urbanização galopante e os processos de industrialização e desenvolvimento que lhe deram azo. Em vez de lugares de prosperidade e crescimento, porventura a maioria das cidades do Mundo – e, certamente, a maior parte das maiores de entre elas – tem vindo a transformar-se em reservatórios de ‘excessos demográficos’ forçados, por múltiplas razões, a abandonar os seus espaços rurais tradicionais. Às características de alvos maiores que não podem deixar de o ser, as novas metrópoles urbanas têm demonstrado ser labirintos, e viveiros, de recrutas fáceis para agrupamentos determinados.

Fazem também hoje em dia parte do tabuleiro os computadores e a Internet, os telemóveis agéis e o texting universal, e todo um espaço virtual que os terroristas podem utilizar (e, como bem sabemos, fazem-no de forma rotineira) para suprir carências organizacionais que de outro modo lhes tolheriam as acções violentas brutais que tanto insistem, agora com fervor religiosos, em levar a cabo sobre ‘combatentes’ e ‘não-combatentes’. A esta desmaterialização do espaço vem associada uma desmaterialização de fronteiras e um novo cosmopolitismo. Por tudo isso, os riscos são agora muito mais reais do que antes foram.

Oxalá estejamos enganados. O certo é que para isso nos temos de preparar. Decerto o urgente é que (tanto programática muito normativamente) o façamos sem perder de vista as liberdades que tanto nos custaram a conquistar – um considerando que nem sempre, infelizmente, temos tido na devida consideração, tal como também não o tivemos no tempo dos anarquistas. Como sabemos, a al-Qaeda – para nos restringirmos a este exemplo, amplamente paradigmático – transformou-se em bastante mais do que numa colecção de células Blaquistas: é hoje uma rede de redes, um mecanismo de copy-catting em que proliferam leaderless cells; mas parece estar também a emergir uma orquestração efectiva e uma maior ‘profissionalização’ nos actos de violência (os ataques recentes em Mumbai [Bombaím] são disso testemunho) do que a pouco que havia no tempo dos anarquistas e anarco-sindicalistas, decerto viabilizadas por um ‘cosmopolitismo’ maior que a globalização permite e instiga. Tal como um pouco por todo o Mundo, as estruturas norte-americanas de resposta (por exemplo, a criação de uma enorme instituição dedicada à Homeland Security, tal como a al-Qaeda um exemplo largamente paradigmático) foram de novo reconfiguradas, novamente segundo padrões semelhantes; continua, assim, agora em formatos inovadores, uma corrida armamentista antiga.

Que consigamos sobreviver a isso, e ao terrível disciplinarianismo que segue na sua esteira.

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Armando Marques Guedes
Armando Marques Guedes é Professor Associado com Agregação, de nomeação definitiva, da Faculdade de Direito, Universidade Nova de Lisboa, desde Maio de 2005, e Membro do Conselho dessa Faculdade. Foi igualmente Professor Convidado em diversas outras instituições ao longo da sua carreira académica, em Portugal e no estrangeiro. Em Portugal, foi Presidente do Instituo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros entre 2005 e 2008 e Director de Planeamento Político, no mesmo Ministério, de 2006 a 2008. Tem servido desde 2005, entre outras instituições,como Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Direito Internacional, Vice-Presidente do Conselho Superior do Movimento Europeu, Vice-Presidente do Conselho Consultivo do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, Vice-Presidente Comissão de Relações Internacionais da Sociedade de Geografia de Lisboa, Vice-Presidente Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e, aí, Presidente da Comissão de Relações Internacionais e Institucionais,Curador do Instituto da Democracia Portuguesa, membro fundador Centro Português de Geopolítica, e membro fundador do Observatório de Segurança Marítima. Proferiu Conferências e palestras e/ou organizou Cursos em várias dezenas de países, tendo obra publicada em onze deles. É autor de mais de setenta artigos e de catorze livros sobre Ciência Política, Segurança e Defesa, Segurança Interna, Relações Internacionais, História da Diplomacia e da Política Internacional, Direito e Sociedade, Sistemas Jurídicos Africanos, e Antropologia Jurídica.

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